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Como uma ex-aluna da ESPM Sul, Ana Gusson se tornou uma talentosa animadora no exterior. Depois de se formar em Design de comunicação Visual, Ana estudou na Vancouver Film School, no Canadá. Trabalhou em estúdios grandes como DHX Studios e Titmouse, e chegou a trabalhar na animação do longa-metragem do My Little Pony. Interessados pela sua carreira de sucesso, a equipe de criação da Co.De a entrevistou, e aqui está o resultado.

Por que você escolheu Design em primeiro lugar?

Eu já sabia que queria fazer um curso de viés artístico. Naquele momento, queria mesmo era fazer Cinema, mas meus pais insistiam em um curso mais “tradicional”, como Arquitetura ou Publicidade e Propaganda. Pesquisei bastante, conversei com profissionais e visitei algumas empresas com a intenção de ter uma ideia melhor sobre cada profissão. Acabei escolhendo Design Gráfico por me identificar mais com o currículo e com as opções de carreira que o curso se referia, e era um curso “tradicional” o suficiente para os meus pais aceitarem hehehe.

Na sua opinião, quais as expectativas para o futuro da animação no Brasil e no Rio Grande do Sul?

O mercado de animação no Brasil é bastante promissor. Temos líderes de audiência em canais à cabo que são produções 100% brasileiras, como as séries Peixonauta, O Show da Luna, Irmão do Jorel e Oswaldo.

Em função do sucesso dessas e outras séries, mais canais e investidores tem procurado e incentivado a produção de conteúdo brasileiro.

Ainda é uma indústria que está se descobrindo, mas que já se provou capaz de resultados excelentes.

No Rio Grande do Sul temos grandes nomes nos representando também, porém estamos mais presentes no circuito de cinema. Todos os anos, ótimos curtas e longa metragens circulam festivais e salas de cinema no mundo todo. Dentre eles, o estúdio Otto Desenhos Animados do animador Otto Guerra, que tem uma filmografia extensa e é um dos animadores brasileiros mais notáveis da nossa história.

Como você chegou à animação?

Às vezes penso que foi por acaso, mas na verdade acho que chegar à animação foi um ciclo que se fechou.

Pois minha paixão por cinema e a arte de contar histórias começou com a animação. Desde muito pequena eu era aficionada por animação, e isso moldou minha personalidade. Gostava de contar histórias e desenhar, mas só percebi que animação poderia ser uma carreira bem mais tarde.

Aos 14 anos descobri que pessoas faziam filmes, que eles não simplesmente existiam no mundo. Foi ali que comecei a sonhar em ser cineasta. Fiz altos filmes com a câmera lá de casa… e nossa, filmava em VHS ainda, tri velha.

Mas a vida segue, e meus pais me direcionaram a tomar um caminho mais “tradicional”. Ainda assim, o interesse por cinema sempre foi muito forte. Então, acabava estudando e direcionando muita coisa dentro e fora faculdade para o assunto. E foi dentro da ESPM que entrei em contato com o pessoal do então Núcleo AV – a agência experimental de áudio e vídeo da faculdade.

Lá que comecei a me direcionar mais seriamente em cinema como uma carreira e conheci parceiros de trabalho e amigos que tenho até hoje. E até meu TCC do curso de Design acabou sendo um curta metragem.

Saindo da faculdade continuei o trabalho na área do audiovisual, especificamente em Direção de Arte. Até que, lá por 2014, o trabalho no mercado de produção audiovisual de comerciais em Porto Alegre começou a ficar muito escasso e precisei procurar por outras opções. Acabei entrando para o mercado de animação fazendo assistência de arte em um estúdio local.

Trabalhando nesse estúdio aprendi muito e me encontrei, foi uma experiência incrível e entendi que sim, ainda queria ser uma cineasta, mas que meu meio preferido de expressão era a animação.

Qual a maior diferença entre o mercado de animação brasileiro e o canadense?

O mercado de animação canadense, como indústria, é mais consolidado do que o brasileiro. É um sistema que se auto sustenta e funciona há muitos anos. No entanto, ao contrário do Brasil, o mercado de animação canadense não é famoso por criar seus próprios produtos. A maioria das animações produzidas aqui tem origem nos EUA ou países Europeus – e atualmente até uma série original do Brasil está sendo animada aqui. Ou seja, as séries são criadas fora, mas, em função de preço e a estrutura de produção pronta e funcional, são executadas aqui. Claro que, cada série/filme é um caso, mas no geral essa é a regra.

O Canadá também investe muito em cinema de animação autoral e são um dos maiores nomes da animação no mundo neste setor. A National Film Board, instituição responsável pelo financiamento e produção de cinema no país, investe anualmente em diversas produções de animação, tanto de curtas como longa metragens.

Já o Brasil, cria e executa suas próprias séries e filmes. Também investimos em coproduções com países parceiros. Ainda é uma indústria que está se descobrindo e tentando criar um modelo que possa se sustentar sozinho. Porém dependemos muito de financiamentos proveniente de editais do governo, o que em si é uma ideia genial. Somos um dos países que mais investe na produção de cinema e TV. Infelizmente é um sistema falho e nem sempre o dinheiro chega até os artistas.

Fora do país, nossa produção de cinema é extremamente bem vista. Recentemente tivemos uma indicação ao Oscar de Melhor Filme Animado e excelentes filmes nos representando em Annency (que é um dos maiores festivais de animação do mundo), como ‘Guida’ e ‘Caminho de Gigantes’ e em diversos outros festivais ao redor do mundo. Somos muito bons, mas talvez ainda nos valorizemos pouco.

O Canadá foi a sua primeira opção? Você chegou a considerar outras escolas além da Vancouver Film School?

Não, o Canadá não foi minha primeira opção. Sim, pesquisei muitas escolas e me inscrevi em diversos editais e bolsas de estudo dentro e fora do Brasil. A Vancouver Film School fez a melhor proposta e o fato de o curso ser mais curto que os demais foram os fatores que me trouxeram até a escola.

Quais foram as dificuldades em trabalhar nesta área em um país estrangeiro?

A diferença cultural trouxe algumas inseguranças. É preciso ter paciência e flexibilidade para me adaptar no dia a dia no estúdio.

Ainda rola uma certa síndrome de “vira-lata”. Às vezes ainda me sinto na obrigação de ser grata e em dívida por ser uma estrangeira no Canadá e no estúdio, como se eu fosse menor ou pior do que os outros. Mas isso não é saudável. Na verdade, é melhor a gente se valorizar, né? Sorte é a desse país que pode contar com o trabalho de estrangeiros que são super competentes, né? Hehehe

Aliás, são muitos estrangeiros no estúdio, existe uma mistura e uma troca super legais!

Também a distância da família e amigos, não é fácil. É uma escolha que preciso sustentar e renovar diariamente. Em alguns dias, a saudade dói bastante e é difícil de me fazer acreditar que essa é uma escolha que vale a pena a longo prazo.

Como foi a experiência de trabalhar na animação do filme de My Little Pony?

Ah, foi tão legal!

Foi o meu primeiro projeto aqui no Canadá e oficialmente como animadora. E tendo recém-saído da escola foi meio que como já sair nadando com os tubarões.

No início foi muito difícil, pois não tinha o mesmo pique e a mesma experiência que grande parte da equipe. Mas tive a sorte de ter ao meu lado profissionais incríveis e supervisores fora de série que me ensinaram muito! Foi preciso humildade para aprender muita coisa de novo e muito esforço para acompanhar o nível da galera.

Trabalhamos muito e muito duro. Mas ao mesmo tempo, tivemos uma diretora que inspirava uma liderança boa e isso nos motivava demais. Também o time de animação que se formou tinha um senso forte de equipe. Eramos uma espécie de família, nos ajudávamos muito e entendíamos o projeto como um esforço conjunto. Isso foi muito especial e fundamental para realização do filme.

Mas só agora tendo passado por outros projetos é que entendo o quão única foi essa experiência.

 

Se você se interessou pelas experiências da Ana, pode dar uma olhada em seu site clicando aqui.